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terça-feira, 16 de setembro de 2008

A geração das crianças criadas em laboratório

A actual geração de miúdos não vai ter uma infância com muitas e saudosas recordações. Penso que a minha geração (ando na casa dos 30 e poucos) terá sido das últimas a ter liberdade para ser criança. Tenho mesmo óptimas recordações daquele período da minha vida!

Recordo-me de me levantar cedo no Verão e ir bater à porta da casa do meu primo, que vivia mesmo ao lado, e continuar batendo às portas dos amigos para irmos todos brincar, quando chegava ao final da rua chegávamos a ser mais de 10 (o Ricardo Tomás não me deixa mentir).

Recordo-me de irmos "orientar" umas laranjas, maçãs e nêsperas nas hortas aqui da zona. Umas vezes tínhamos sorte, outras tínhamos de largar tudo e correr bastante para não sermos apanhados pelos donos das mesmas.

Recordo-me de irmos apanhar alfarrobas ou amêndoas e vendermos, com o dinheiro que fazíamos íamos comprar Coca-colas para todos.

Recordo-me de noutras ocasiões pegávamos num arrasto e íamos à conquilha e à amêijoa. No final juntávamo-nos todos e fazíamos um petisco.

Recordo-me de fazer casas de madeira com os meus amigos, de construir pequenos estádios de futebol e de limpar as ervas da nossa rua entre todos os amigos.

Recordo-me de construir carrinhos de rolamentos e descer as ladeiras abaixo, de jogar ao peão, de jogar ao berlinde, de jogar futebol durante todo o dia, chegando muitas vezes a casa todo sujo e com pequenas escoriações. Lembro-me de chegar tarde a casa e levar uma repreensão ou algumas bofetadas da minha mãe. A área de competência do meu pai era para as minhas avarias mais graves.

Recordo-me de ir tomar banho na piscina do vizinho quando ele não estava em casa.

Recordo-me de brincar até à meia-noite na rua sem precisar da vigilância permanente dos meus pais.

Esse período até nem foi assim há tanto tempo. As crianças são agora mais fechadas em casa, ficam mais tempo a ver televisão e a jogar ao computador. Os pais vigiam constantemente os filhos, até mesmo dentro de casa. Existe um cuidado exagerado no que diz respeito às compras que se fazem para os filhos, tudo tem que ser perfeito. Até parece que as crianças estão sendo criadas em laboratório. Para quê??!!

Compreendo que existe o alarme da pedofilia, mas quando se vigia um filho deve-se ser discreto e fazer como se o pai ou a mãe não estivessem lá.

Compreendo que há muita mais informação e é natural que façamos uso dessa informação para beneficiar os nossos filhos.

Compreendo que a taxa de crimes tem vindo a aumentar e queremos proteger os nossos miúdos.

Compreendo que pelo facto de sermos extremamente consumistas estamos a envenenar os nossos filhos com essa doença, pois eles exigem as coisas ou porque os amigos também têm ou porque viram na televisão, tal como nós (o pior é que eles não têm a vacina para essa doença).

Agora não compreendo é porque é que estamos tirando a liberdade das nossas crianças, torná-las bastante dependentes e estragadas com mimos. Isso não será pior do que, simplesmente, deixá-las ser como são? Crianças!!

4 comentários:

Isabela disse...

Heheheheh!!Está muito bom este post!!
"Quando estiver em causa a escolha entre a liberdade e a disciplina, opta pela liberdade, é o bem mais precioso que temos."

Força e energia!

Bjs

Carlos Carmo disse...

Concordo tanto com o Helder como com a Isabela, mas temos que verificar que são tempos totalmente diferentes, pois os meios tecnológicos e a comunicação social são "meios ferozes" e mais perigosos que se possa pensar, mas os tempos são outros, as crianças tem outras maneiras de brincar e tudo mais, como se costuma dizer os tempos são outros, em muitas "coisas" da vida, pois antigamente morria-se de muitas doenças e hoje, felizmente, não, enfim, formas diferentes de ver a vida, mas quando, como sou pai, sei o que sinto e o que digo. Excelente post Helder. P.S.: Abraço de Quarteira para os arredores de Lethbrigde.

Ricardo Tomás disse...

Amigo Hélder, belo post! O tema é deveras interessante, é verdade que os tempos são outros, mas como tu dizes não foi assim à tanto tempo. O Carlos, menciona aqui um facto bastante importante - o rápido desenvolvimento da tecnologia, não é o único factor para tal mas é relevante. A este acrescentaria o apetite devorador da sociedade de consumo e consequentemente a característica que está por trás de tudo isto: a velocidade! Vivemos num mundo acelerado e em constante aceleração, onde o tempo é algo de escasso e precioso. Quanto mais rápido tudo acontece, maior ímpeto de velocidade pretende-se acrescentar. A velocidade, diria, é o "narcótico social" por excelência desde o final do século XX. Vivendo numa sociedade assim, não há tempo para pensar muito, para parar e no caso das crianças nem quase para brincar!
Ao ler o teu post, por momentos fui transportado para esse tempo, onde todo o nosso tempo livre (e era bastante) era espaço para explorar todo aquele meio que nos rodeava em perfeita camaradagem (salvo as "birras" típicas da idade) e acima de tudo perceber que sem os outros , brincar era algo aborrecido.
Os tempos mudaram, as regras e a pressão social e familiar são outras, na minha humilde opinião, menos enriquecedoras do ponto de vista do relacionamento social. Não é à toa, que se afirma que vivemos e caminhamos cada vez mais para uma sociedade egoísta e individualista .

Abraço amigo

PS: Não consigo imaginar nos dias de hoje, um grupo de, pelo menos meia dúzia de crianças andar a saltar muros e vedações pelo simples prazer de apanhar uma dúzia de laranjas ou tangerinas!

Helder Gomes disse...

O pior é que os miúdos actualmente nem têm liberdade e muito menos disciplina. Era impensável no meu tempo nós ralharmos ou insultarmos os nossos pais, tal como alguns miúdos agem hoje em dia. Isso dava direito a uma valente sova e castigo. Não estou aqui a armar-me com discurso de velho, mas dá-me pena que os miúdos não tenham mais independência e liberdade.

É óbvio que os meios tecnológicos e a comunicação social contribuíram para o pânico geral, tal como referi no post. Mas o que é facto é que já naquele tempo haviam os problemas, embora em menor escala, tais como a pedofilia e a falta de segurança.