Na passada semana, lia um artigo no jornal "i" do Nobel da Economia de 2008 - Paul Krugman, sobre a questão da premiação daquilo a que o próprio define como "os maus actores".
Esta é uma questão que está intrinsecamente ligada com o actual estado do sistema financeiro mundial, na medida em que segundo Krugman,"A especulação financeira pode e deve servir propósitos úteis. Mas muito do que se faz em Wall Street não traz qualquer benefício social, e pode mesmo ser destrutivo".
Na frase de Krugman, é fácil identificar dois "eixos" que considero bastante reveladores daquilo em que de facto se transformaram os actuais sistemas financeiros mundiais: sem benefícios sociais e (como se acabou por constatar) destrutivos.
Não quero com isto afirmar que, existem sistemas infalíveis. Claro que não. Aquilo que pretendo focar, e que o próprio Krugman também refere, é simplesmente o facto de que para muitas empresas, independentemente de as mesmas serem óptimas naquilo que fazem (no caso em análise, empresas ligadas ao mundo bolsista), independentemente de as mesmas gerarem lucros gigantescos (mesmo que não tenham qualquer ajuda estatal ou financeira para tal), a sua actividade e o modo como actuam é prejudicial para a sociedade em geral.
Afirma então Krugman:
"A especulação financeira pode servir um propósito útil. É positivo, por exemplo, que os mercados de futuros forneçam um incentivo para armazenar combustível antes de o clima arrefecer e para armazenar gasolina antes da época estival dos passeios de carro.
Mas a especulação baseada em informações que não estão disponíveis ao grande público é um assunto completamente diferente. Como o economista da UCLA Jack Hirshleifer demonstrou em 1971, essa especulação combina frequentemente "lucro privado" com "inutilidade social".
Ora, a ânsia pelo lucro a qualquer preço tem conduzido a que cada vez mais, falar de "lucro privado" é sinónimo de falar-se de "inutilidade social", o que é mau. Isto porque, propicia discursos que encaram o lucro privado como algo nefasto, hediondo e não mais do que o resultado de uma prática corrente de exploração do mais fraco.
Sabemos que em muitos casos -infelizmente - essa é uma realidade inerente à conduta empresarial de muitas empresas. Contudo, na minha modesta opinião, o cerne destas visões mais extremadas do mundo da economia e das finanças, reside mais na situação criada pelos ditos "maus actores", os quais canalizaram exclusivamente para si todo os grandes lucros, sem a mais pequena objecção ética e moral face ao meio social em que os próprios estão inseridos criando desse modo, um profundo e nefasto desiquilíbrio social (tomemos como exemplo, aquilo que se passa actualmente com as ditas «classes sociais»). Ainda por cima, com um dado agravante: a premiação dos que nos empobrecem.
Pegando uma vez mais nas palavras de Krugman, para terminar, "nem a administração nem o nosso sistema político em geral estão prontos a enfrentar o facto de que nos tornámos uma sociedade em que os grandes lucros vão para os maus actores, que premeiam principescamente aqueles que nos empobrecem."
Quantos Madoff's, andarão por aí?
terça-feira, 11 de agosto de 2009
A valorização da mediocridade e do individualismo
domingo, 11 de janeiro de 2009
Os mercados financeiros são o fim da macacada
Não resisto a postar aqui no Opinion Shakers esta metáfora sobre os mercados financeiros, a qual recebi por e-mail e cuja autoria desconheço.
"Uma vez, num lugarejo, apareceu um homem anunciando aos aldeões que compraria macacos por 10 € cada.
Os aldeões, sabendo que havia muitos macacos na região, foram à floresta e iniciaram a caça aos macacos.
O homem comprou centenas de macacos a 10 € e então os aldeões diminuíram seu esforço na caça.
Aí, o homem anunciou que agora pagaria 20 € por cada macaco e os aldeões renovaram seus esforços e foram novamente à caça.
Logo, os macacos foram escasseando cada vez mais e os aldeões foram desistindo da busca. A oferta aumentou para 25 € cada e a quantidade demacacos ficou tão pequena que já não havia mais interesse na caça. O homem então anunciou que agora compraria cada macaco por 50 €! Entretanto, como iria à cidade Grande, deixaria o seu assistente cuidando da compra dos macacos.
Na ausência do homem, o assistente disse aos aldeões:
- Olhem todos estes macacos na jaula que o homem comprou. Eu posso vender-vos por 35 € e, quando o homem voltar da cidade, vocês podem vender-lhe por 50 € cada.
Os aldeões, "espertos", pegaram nas suas economias e compraram todos os macacos do assistente.
Eles nunca mais viram o homem e o seu assistente, somente macacos por todos os lados.
Agora ficaste a saber como funcionam os mercados financeiros?"
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Crise financeira faz disparar procura por apoio psicológico nos EUA
Hoje li um artigo interessante no Jornal de Negócios que decidi postar aqui, na senda da já afamada crise financeira mundial e que coloca a nú as fragilidades do actual modelo económico-financeiro neo-liberal. E não se iludam com a euforia verificada durante o final desta sexta-feira que contagiou quase todas as principais Bolsas mundiais, derivado ás medidas anunciadas pelo governo do Sr. Bush e sus muchachos .
"Uma grande onda de ansiedade está a varrer os Estados Unidos, de Wall Street à Califórnia, provocada pelo colapso do mercado de crédito imobiliário, pelos preços da gasolina, pelas restrições ao crédito e pelo crescente desemprego.
A crise financeira, que provocou uma explosão das execuções de hipotecas, está fazer com que as pessoas procurem os serviços de saúde mental a níveis não verificados desde os ataques terroristas de 11 de Setembro.
"Está a acabar com os sonhos das pessoas de comer um pedaço do bolo", disse Victoria Tabios, 52 anos, que trabalha numa agência de saúde mental em Stockton, Estado norte- americano da Califórnia, cidade que está no epicentro da pior crise imobiliária que assola os EUA desde a Grande Depressão. "Há uma sensação de desesperança, irritabilidade e raiva."
Em Nova Iorque, as ligações para a rede Hopeline, que atende pessoas com depressão ou pensamentos suicidas, deram um salto de 75%, para 10.368 casos, nos 11 meses até Julho de 2008.
A ComPsych Corp., sediada em Chicago, a maior provedora de programas de assistência a empregados do mundo, registou em Julho uma subida de 21% no número de pedidos de ajuda por telefone devido a pressões financeiras, em relação ao mesmo mês de 2007.
O número de admissões nos hospitais para serviços psiquiátricos aumentou 10% este ano, segundo os papéis apresentados ao UnitedHealth Group Inc., a maior seguradora de saúde dos EUA.
"O auge de 11 de Setembro provavelmente foi mais alto no início, mas este tem sido mais sustentado", disse o principal executivo da ComPsych, Richard Chaifetz, numa entrevista por telefone. A previsão de Chaifetz é que a crise económica e o subproduto psicológico vão "piorar e agravar-se" nos próximos 12 meses.
Mesmo as pessoas que não perderam o emprego ou a casa sentem ansiedade. Um estudo realizado, em Abril, pela Associação Americana de Psicologia revelou que três em cada quatro norte-americanos estão ansiosos devido a problemas de dinheiro.
Outro estudo, realizado em Setembro de 2007, revela que quase metade dos entrevistados disse que essa ansiedade está a afectar as suas vidas profissional e pessoal.
"Atingimos um ponto máximo, em que a ansiedade quanto à economia está impregnada por toda parte", disse Dan Abrahamson, diretor-executivo assistente do departamento clínico da associação. As preocupações "estão ali o tempo todo; você não consegue tirá-las da cabeça."
"Muitas pessoas procuram-nos com depressão, com medo de perderem suas casas" e muitos filhos estão a sofrer com a ansiedade dos pais, tendo dificuldade em se concentrarem na escola, disse Marcos Gallardo, director de serviços de saúde comportamentais do El Concilio, entidade filantrópica de Stockton.
"É uma enorme ansiedade para toda a família, especialmente para as crianças", disse Garry Hill, director de serviços clínicos do Instituto da Família da Universidade do Noroeste, na área de Chicago. Garry Hill trabalha com várias famílias que perderam as casas. O número de pessoas que procura o instituto cresceu cerca de 15%, acrescentou.
Barbara Mautner, psicoterapeuta de Manhattan com consultório em Wall Street, disse que a falência do Lehman Brothers, que ameaça 25 mil empregos, desencadeou uma onda de ansiedade. Um cliente, que conseguiu encontrar uma nova posição depois de ser demitido com a quebra do Bear Stearns, está novamente em pânico.
Os telefonemas para os serviços da rede Hopeline têm aumentando todos os meses desde Novembro de 2007, segundo o presidente da organização, Reese Butler.
“Nunca vimos um aumento nas ligações como este nos 10 anos de nossa história", disse Butler, em entrevista telefónica." in, Jornal de Negócios de 19/9/2008












