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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Dilema do mal/ Paradoxo de Epicuro

Deus é omnipotente, omnisciente e bom!

Deus não poderá ser as três coisas.

Se for omnipotente e omnisciente, então tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele, ainda assim não o faz. Não é bom.

Se for omnipotente e bom, então tem poder para extingir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não sabe quanto mal existe.

Se for omnisciente e bom, então sabe do todo o mal e quer mudá-lo. Mas isso elimina a possibilidade de ser omnipotente, pois se o fosse erradicava o mal.

Logicamente seria impossível sair daqui. Pois é!! Mas lógica e religião não têm muito a ver. Por isso os cristãos para se livrarem deste paradoxo, espetaram-nos com a teoria do livre-arbítrio. O livre-arbítrio segundo os religiosos é o aspecto em que o ser humano tem total liberdade nas suas acções, ou seja, não é controlado por Deus.

Antes de lá chegarmos, afirmar que o mal provém somente do livre-arbítrio, é no mínimo falacioso. O que dizer dos acidentes, das catástrofes naturais e de outras desgraças que os seres humanos não podem controlar, que destroem a vida de milhões de pessoas, isso não prova que existe mal para além do ser humano?

Para ter livre-arbítrio, o ser humano deve ter mais do que uma opção, sendo que uma é descartada. Isso significa que antes de se fazer a escolha, deve haver um estado de incerteza durante o período de possibilidades: o ser humano não pode saber o futuro. Mesmo se o ser humano achar que pode prever a sua decisão, se afirma ter lívre-arbítrio, deve admitir a possibilidade (senão o desejo) de mudar de ideia antes da decisão ser a última.

Um ser que sabe tudo não pode ter um "estado de incerteza". Ele sabe as escolhas antes. Isso significa que não têm a liberdade de evitar as escolhas dele, portanto ele não possui o lívre-arbítrio. Já que um ser que não possui o livre-arbítrio não é um ser pessoal, um ser pessoal que sabe tudo não pode existir.

Se existe o livre-arbítrio, porquê a rezas e as orações pedindo a Deus que intervenha na vida do ser humano?

Deus sabe o futuro, pois existem as profecias. Se Deus sabe o futuro, então não há alternativa para o ser humano, pois o seu destino já está traçado. Logo não há livre-arbítrio.

Se não há livre-arbítrio, voltamos novamente ao Paradoxo de Epicuro/ Dilema do Mal.

Havia muito para dizer sobre o livre-arbítrio e as posições Deterministas, Indeterministas, Compatibilistas e Incompatibilistas que têm alimentado a filosofia Ocidental nestes últimos séculos, mas para isso deixo-vos aqui o link para se informarem melhor.

Para terminar gostaria só de acrescentar que Epicuro viveu antes de Cristo (341 a.c. – 270 a.c.) e desconhecia o Deus dos Judeus (do Velho Testamento), mas era comum naquela época serem atribuídos a Zeus as características de Omnipotente, Omnisciente e Bom. A partir daqui e de outros factos que divulgarei noutras postagens, poderemos ver que o Cristianismo foi influênciado por inúmeras religiões da Antiguidade.

5 comentários:

sonia disse...

Até que ponto vai o cérebro humano para investigar sobre assuntos que levam quase ao desespero. Imagino o quanto Epicuro dava tratos à bola para chegar a tão instigantes considerações. É de se tirar o chapéu!!! Fico aqui pensando porque nenhum comentário foi feito a esse texto tão interessante. Por textos muito menos inteligentes as pessoas se fartam de comentar. Bem...cada um na sua, abraços e obrigada por compartilhar essa preciosidade!

Helder Gomes disse...

Olá Sónia,

Muito obrigado pelo seu elogioso comentário.

Em meu nome e em nome de toda a equipa do Opinion Shakers gostaríamos de lhe dar as boas vindas (embora com algum atraso, reconheço)ao nosso humilde e recente blog. De facto ainda não há muitos comentários devido ao facto do Opinion Shakers ainda estar "pintado de fresco".

Penso que a humanidade perdeu muito com o facto da filosofia de Epicuro , e também de Demócrito, ter sido ocultada e negligenciada durante vários séculos.

Anônimo disse...

Seria possivel ter as respostas para todas as perguntas apenas através da lógica humana ?
Se possível, teríamos que saber responder com precisão aos paradoxos, pois eles surgem atraves de perguntas.
Se não for, como se pode usar apenas a lógica para buscar todas as respostas se ela não resolverá todas as questões ?

Helder Gomes disse...

Caro visitante,

Antes de mais, gostaria de agradecer o seu pertinente comentário e de lhe desejar as boas-vindas ao nosso blog.

Tal como pretendeu inferir, a lógica não responde a tudo. Estou plenamente de acordo. Por outro lado, a fé não responde a nada.

Ao longo da história da Humanidade tem havido sempre uma frenética vontade de explicar tudo de imediato. E que instrumento melhor senão o Deus das lacunas? À medida que essas lacunas vão desaparecendo com a ajuda da Ciência (que é também, e muito, apoiada pela lógica) o limite de acção do Deus das lacunas vai-se mitigando, assim como a sua influência.

Como sabe, um paradoxo lógico consiste em duas proposições contrárias ou contraditórias derivadas conjuntamente a partir de argumentos que não se revelaram incorrectos fora do contexto particular que gera o paradoxo. Ou seja, partindo de premissas geralmente aceites e utilizadas, é (pelo menos aparentemente) possível, em certas condições específicas, inferir duas proposições que ou afirmam exactamente o inverso uma da outra ou não podem ser ambas verdadeiras.

Resultante disto, o Paradoxo de Epicuro deixa de existir quando os crentes retirarem, apenas, uma das propriedades que são atribuídas a Deus (Omnipotente, Omnisciente e Infinitivamente Bom). Tal como ficou esclarecido no post acima.

chicoary disse...

Olá Helder.

A possibilidade dos crentes retirarem uma das propriedades para eliminar o paradoxo me parece nula. O mais provável é começarem por desautorizar os argumentos com alguma petição de princípio, como é usual. A discussão neste post é totalmente hermética para os crentes tal como nos parece as próprias discussões dos mesmos sobre várias questões que são sentidas como concretas quando, na verdade, são abstratas. Se considerarmos as três propriedades citadas com características de Zeus (e não Deus) podemos com muita tranquilidade tripudiar encima delas, como o aceitaria imediatamente um crente moderno e alguns antigos, afinal o que é um deus pagão? Nada. Pueris fantasias de uma humanidade ainda no berço. Digamos que as três qualidades dizem o que é Zeus e, logo, falar 'Zeus' é o mesmo que dizer 'omnisciente, omnipotente e benevolente'. Dizer Zeus é o mesmo que dizer, de forma encurtada, as suas propriedades. Mas a questão ontologica sobre a existência do ser parece ficar intocada. Para os crentes das religiões reveladas (revelação que só ocorre para alguns enquanto que outros acreditam não em Zeus, mas em quem o revela) é uma questão de fé. Fé hermeticamente circunscrita e avessa a argumentos. Apesar de alguns círculos religiosos gostarem de parecer reverenciar um racionalismo, desde que aos pés do altar, estão pouco ligando para isso. Só seguem a moda na sombra do prestígio das ciências e seu modo científico para obter adesão das massas pela amenizaçao dos esoterismo implícito. Eles sabem que é muito fácil confundir os adversários que se dispõem a uma dialética de forma pura e ingênua, pureza e ingenuidade caracterizando a uma nobreza e uma leadade ao interlocutor, onde este pode trocar os pressupostos e estendê-los ao seu bel prazer sem que nenhum tribunal da coerência possa ser erigido e fazer valer os seus direitos. Em suma, ê uma discussão para os espíritos já livres e aqueles que começam a duvidar e não para os emperdenidos, embora seja uma bela discussão.